A oportunidade de redesenho da quadra onde está localizado o Palácio Rio Branco e de construção de um novo complexo para a Câmara Municipal de Curitiba parte da premissa de criação de um novo, simbólico e importante espaço essencialmente público, uma ágora contemporânea, onde a população é generosamente acolhida e integrada, e as discussões sobre a vida e o destino da cidade passam a fazer parte do cotidiano curitibano.
Diálogos Contemporâneos | A proposta aqui apresentada é resultado de um cauteloso processo de leitura urbana do lugar, que considera o patrimônio tombado, a praça, as calçadas, a avenida, os usos e ocupações das quadras vizinhas e a relação com o entorno e o centro da cidade, buscando articular todas essas espacialidades com as atividades previstas pelo edital. O Palácio tem o seu protagonismo no conjunto preservado e valorizado. Para tanto, é a partir dele que são definidos os alinhamentos horizontais e verticais das novas construções, ou seja, sua implantação e volumetria, bem como, partindo da configuração de seu salão nobre, a definição do eixo que serve como coluna vertebral para estruturação de todo o programa previsto. Sua materialidade é também tomada como base para a definição dos materiais, técnicas construtivas e cores adotados, buscando-se sempre a construção de um diálogo franco e dialógico. A partir dele, um volume suspenso, contendo o programa público previsto, desenvolve-se em todo o sentido longitudinal da quadra, definindo uma praça de livre acesso, coberta e aberta, de um lado, para a calçada da Avenida Visconde de Guarapuava e, do outro, para a histórica Praça Eufrásio Corrêia, agora integrada ao conjunto por meio de um novo calçadão, reforçando o caráter público do piso térreo e uma continuidade do conjunto de praças-parques da cidade, potencializado ainda mais pela escala e configuração aqui propostas. Sobre esse embasamento, no lado oposto ao Palácio, junto à Rua Lourenço Pinto, é implantada uma torre, estabelecendo relação com a verticalização das quadras vizinhas, com desenho sóbrio e elegante, concentrando o programa de acesso restrito, de escritórios, gabinetes e áreas de apoio, desempenhando simbólico papel de marco urbano. O conjunto é pensado como uma unidade coesa e consistente, formada por elementos distintos entre si, em função de suas particularidades de origem e funcionais, mas articulados de modo a constituírem um equilíbrio sólido e significativo na paisagem de Curitiba.
Praça Cívica | A conexão com os novos edifícios é feita pela nova Praça Cívica, que apenas toca a fachada posterior do Palácio, sendo sua organização marcada por um eixo visual que acompanha a largura do salão nobre do Palácio, livre de qualquer interferência, estabelecendo os vazios, os novos acessos e o programa previsto. O potencial da transposição deste espaço sob a edificação é solução estratégica para fortalecer a conexão entre praça, rua e o conjunto arquitetônico. Buscou-se, assim, explorar e valorizar a sua espacialidade, bem como os fluxos de permanência e circulação de pedestres, com desenho mais aberto e generoso. Com diversos pontos de ativação específicos – entre eles os acessos aos edifícios, o café e o espaço ecumênico – e diversos percursos possíveis, soma-se a sua espacialidade que, diversa em elementos como bancos, mesas, patamares, áreas de sombras, áreas ensolaradas, eixos, transforma-a numa esplanada que, ao invés de se limitar a uma configuração única, oferece-se de modo flexível e capaz de abrigar uma diversidade sem fim de atividades, tanto da população como da própria instituição. Assim, a Praça Cívica proposta, para além de um espaço de transposição e integração, é concebida principalmente como um lugar aberto e à espera da cidade e de sua população. Como instituição cívica, a Câmara Municipal de Curitiba consolida sua representação pública na concretude de sua presença arquitetônica e urbana.
Palácio | Buscando valorizar o seu caráter público, o Palácio é transformado em um polo destinado a atos públicos, cultura e lazer. Intervenções espúrias anteriores identificadas são criteriosamente removidas e o novo programa é organizado com base no conceito de mínima intervenção visando à sua adaptação, o que não impede a adoção de soluções que proporcionem melhor aproveitamento de seus espaços, bem como, o necessário atendimento às normas técnicas atualmente vigentes. Assim, em seu interior são previstas intervenções que, além de proporcionar circulação vertical e acessibilidade adequadas, promovem também melhor circulação horizontal. Para tanto, baseadas na marcante composição e generosidade das três portas do acesso principal, são propostas junto à antiga fachada posterior também três portas para conexão do salão nobre com a nova praça. O vão central existente se mantém e suas duas janelas laterais, cujos caixilhos já foram alterados e descaracterizados, terão apenas os seus parapeitos demolidos, transformando-as em duas novas passagens, ampliando e valorizando a circulação e conexão entre a preexistência e o novo complexo. A forma de seus vãos originais, em arco pleno, será restaurada, e novos batentes metálicos serão instalados, com cor próxima à dos originais em madeira, mas com o intuito de identificar a intervenção realizada. Buscando promover uma circulação intuitiva e eficiente, nos espaços laterais a esse acesso são locadas as novas circulações verticais – de um lado, a plataforma hidráulica que garante acessibilidade universal e, do outro, uma nova escada, com dimensões de acordo com as normas, ambos conectando os três níveis do Palácio. No pavimento superior, originalmente configurado como duas alas laterais que não se conectam, de modo a proporcionar não apenas melhor circulação, mas também tirar partido de um novo e surpreendente foco potencial do conjunto, no último módulo da estrutura, é criada uma plataforma conectando um lado ao outro, proporcionando um mirante interno ao edifício, de onde se pode admirar toda a beleza de seu interior, seu movimento e todas as atividades que ali se realizarão no seu dia-a-dia. Essa plataforma debruçada sobre o vazio abrigará o café e funcionará como palco para eventos culturais ou, ainda mais significativo, como púlpito, para declarações e anúncios públicos da Câmara Municipal. Os novos elementos ali inseridos são de estrutura metálica e reduzidos ao mínimo necessário, portanto, leves física e visualmente. A cor adotada, o verde pastel, foi escolhida a partir da análise cromática das tonalidades das pinturas internas no Palácio, com o intuito de proporcionar uma ideia de contraste complementar e equilibrado entre o novo e a preexistência. Elemento singular e de destaque, o balcão de apoio no mezanino será revestido de Mármore Napoleon Bordeaux, proveniente do Paraná, também conhecido localmente como Mármore Pinhão, considerado uma das raras pedras vermelhas naturais do mundo, famoso por sua intensidade de veios marcantes e tons quentes e profundos, complementar com os tons claros predominantes e dando o caráter nobre que aquela ambiência merece.
Embasamento | O embasamento horizontal suspenso sobre a praça contém o plenário, auditórios, as atividades relacionadas e de apoio, organizados por duas circulações distintas, pública e restrita. Esse volume é caracterizado por um grande vazio, que proporciona pé-direito triplo à praça e distingue o caráter público deste espaço. Suas fachadas são revestidas por uma pele translúcida de vidro serigrafado e brises verticais (no caso do vazio central), que, por um lado, estabelece certa neutralidade, por meio de sua simplicidade, em relação às fachadas ornamentadas do Palácio, por outro, a depender da variação das luzes em diferentes horários e condições climáticas, passa a revelar sua estrutura e as relações de cheios e vazios de seus espaços internos, gerando uma inusitada mudança de percepção daquela arquitetura. Esse mesmo embasamento, nos coloca diante de momentos expressivos da arquitetura, começando pelo vão de aproximadamente 40 metros que configura a praça cívica principal, bem como das treliças em suas fachadas que se evidenciam como os elementos estruturais que o possibilitam.
Plenário | É essa articulação estrutural também a responsável pelo espaço mais simbólico do conjunto, o Plenário Principal, cujo espaço é definido pela convergência de poéticas complementares condizentes com sua nobreza institucional. O projeto se aprimora estabelecendo uma espacialidade plena axial de perspectivas concêntricas e análogas a todos os presentes, deputados e visitantes, a partir de uma forma expressiva de derivação elíptica que configura um espaço contínuo. Envolvido por uma superfície perimetral delicada, o fenômeno da luz natural se evidencia delicadamente por entre as frestas de seus painéis que, tanto de fora para dentro, como de dentro para fora, fazem da iluminação um instrumento potente de ambiência espacial. Remetendo aos arquétipos correspondentes, esse espaço é finalmente coroado por uma cúpula singular que se expressa pela poética estrutural da treliça metálica espacial e tirantes que permitem a cobertura desse espaço sem qualquer outro apoio. A leveza desse elemento é também intensificada pela abertura perimetral que torna a luz natural um elemento poético e dinâmico que o suspende sobre o olhar de seus usuários.
Torre | A torre, por sua vez, é organizada a partir de um núcleo rígido que concentra a circulação vertical, prumadas e instalações necessárias, além de um vazio voltado à Praça Eufrásio Corrêia, que atravessa todos os pavimentos, oferecendo belas vistas da massa arbórea a partir dos espaços internos. As áreas de escritórios são voltadas às fachadas laterais, leste e oeste, sem prejuízo de vistas ou insolação, ambas devidamente protegidas da incidência solar excessiva por brises verticais de alumínio. Sua estrutura mista de concreto e aço oferece a rigidez e leveza desejadas a esse volume vertical.
Estruturas e Vedações | Com base no conceito de distinguibilidade formal e material, as novas estruturas se articulam volumetricamente com o Palácio, mas dele se diferenciam por meio da redução e simplicidade de formas, do uso de materiais e técnicas construtivas contemporâneas e do uso da cor, ainda que as tonalidades adotadas tenham sido escolhidas buscando o diálogo com as originais, internas e externas. As peles de vedação estabelecem distintos efeitos e percepções em função de diferentes momentos do dia e das condições do tempo; sua translucidez e os brises para proteção da insolação geram efeitos visuais que tornam os volumes puros mais dinâmicos e surpreendentes. As soluções adotadas buscam, entretanto, e acima de tudo, garantir conforto ambiental e maior controle térmico dos espaços internos, contribuindo para a redução do consumo energético dos edifícios.
Economia e Viabilidade | Poucos e sóbrios elementos compõe o novo complexo, visando à conformação de um espaço com clareza de legibilidade e como forma de contenção de custos de sua execução. Além de leveza visual, a estrutura metálica adotada proporciona uma obra rápida, racional e eficiente, evitando a indesejada geração de resíduos e o inaceitável desperdício de recursos, de tempo e, portanto, de investimentos públicos.
Expressão Arquitetônica | A expressividade arquitetônica da proposta adota um caráter austero, entendendo-o não como limitação, mas como virtude. Em um contexto marcado pela presença de um patrimônio de excepcional valor histórico e simbólico, evidencia a coerência de uma linguagem formal discreta, capaz de estabelecer relações de complementaridade sem recorrer ao protagonismo ou ao contraste excessivo. A austeridade das formas, a clareza compositiva e a economia de gestos constituem, nesse sentido, atributos fundamentais da intervenção. Tal aparente simplicidade, contudo, revela-se progressivamente mais complexa à medida que o observador se aproxima do edifício e dele se apropria. Se à distância predominam a unidade volumétrica e a contenção formal, a proximidade permite perceber a riqueza material das superfícies, a profundidade das peles de vedação, as variações de transparência e os efeitos variáveis da luz. No interior, essa experiência se intensifica por meio de uma sucessão intensa de espacialidades que variam entre ambientes grandes ou compactos, comedidos ou expressivos, originando singulares percepções das complexas relações entre materiais, percursos e ambientes. Em certa medida, estabelece-se uma inversão em relação ao patrimônio existente: enquanto este apresenta uma expressividade exterior elaborada que abriga novas intervenções internas necessariamente sóbrias, o novo complexo assume uma presença externa equilibrada, revelando sua maior riqueza e complexidade num âmbito complementar. Trata-se, portanto, de uma manifestação contemporânea da arquitetura, na qual a intensidade da experiência não decorre da exuberância formal, mas da descoberta gradual das qualidades espaciais, materiais e sensoriais da obra.
O novo complexo da Câmara Municipal de Curitiba, um espaço público por excelência, complementará o conjunto de marcos arquitetônicos e urbanísticos dessa cidade, referência em todo o mundo por seu rico e eficiente desenho, sua infraestrutura primorosa e, em especial, sua excepcional qualidade de vida.
3º Prêmio
Concurso Público Nacional de Arquitetura para o Complexo da Nova Sede da Câmara Municipal de Curitiba
Local: Curitiba, PR
Ano: 2026
Área do Terreno: 5.586 m²
Área Construída: 20.212m²
Autores:
Daniel Corsi, Dani Hirano, André Biselli Sauaia e Marcio Novaes Coelho Jr
Colaboradores:
Victor Hermoso Brancalion, Marcela Queiroz Gregorin, Gabriela Namie Uehara Yamashiro, Vinícius Mamelli Cossovan, Leonardo Rocha Moura e Silvio Sguizzardi
Consultores:
Miguel Maratá (Estruturas e Instalações), Leonardo Loyola (Paisagismo), Marcelo Ribeiro de Aquino Figueiredo Mello (Conforto Ambiental) e Wanderley Veronesi (Orçamento)
Vídeos:
David Dalmas Chang


















